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Quadra da Quaresma

Aos bailes e outros divertimentos seguem-se nesta época de penitência e oração, as manifestações religiosas próprias. As cantigas alegres e pagãs sucedem-se os cânticos religiosos alusivos à paixão e morte de Cristo.

Os Ramos

Domingo imediatamente ao de Páscoa, com o significado religioso da entrada triunfal de Jesus Cristo em Jerusalém, também aqui não deixa de ser comemorado. As crianças levam â Igreja ramos de oliveira, de diversos tamanhos, consoante a força, numa evocação bem sublime de inocência e paz, engrinaldado com goivos, lírios, etc., enquanto as mulheres que normalmente se associam às actividades e representações religiosas sentindo mais na Quadra da Quaresma (igualmente conduzem pequenos ramos de oliveira e alecrim), unidos todos no mesmo propósito de viverem e celebrarem condignamente a paixão de Cristo. Bentos os ramos são os mesmos conduzidos para casa onde colocam com cuidado especial visto lhes atribuírem certas virtudes.

A Procissão do Encontro

Constitui uma das mais importantes cerimónias na Zebreira. Chama-se procissão do Encontro do Senhor com a Virgem Santíssima por reviver a cena do encontro de Cristo com a sua mãe quando seguia escarnecido e coberto de sangue para o calvário.

A procissão é organizada na Igreja Matriz de onde sai com uma só imagem, a de Cristo crucificado, seguindo do Adro para a Capela de S. Sebastião e desta para o Calvário. Formam-se alas de fiéis que alumiam com velas durante a procissão, Junto do vigário seguem alguns homens que, juntamente com todas as mulheres, entoam durante o trajecto a Ladainha de Todos os Santos.

A semelhança do que é feito na Capela de S. Sebastião mas mais prolongadas são as orações e cânticos no Calvário. Daqui há nova paragem na Capela de S. Pedro, muito próxima, seguindo depois Castelo abaixo em direcção â estrada, local onde se vai dar a cerimónia do encontro. Entretanto e sensivelmente ao mesmo tempo que a procissão parte do Calvário, sai da Capela da Nossa Senhora da Piedade, na Devesa, a imagem da Nossa Senhora da Piedade que em procissão também vem até ao local do encontro. Durante este trajecto, que é todo pela estrada, vêem-se muitas devotas que, cumprindo promessas, avançam de joelhos, por vezes amparadas por pessoas de família e amigas. Na confluência da rua do Castelo com a estrada, Nossa Senhora sobre o seu andor e

Cristo na Cruz, avançam ao encontro um do outro ficando alguns instantes frente a frente. O andor da Virgem Santíssima recua como que a significar que não reconheceu logo o filho crucificado pela maldade dos homens.

No entanto, o seu coração adivinhando diz-lhe que é aquele o seu amado Jesus e então vai de novo ao seu encontro mostrando toda a amargura que lhe vai na alma.

Por sua vez o Filho vai ao encontro da Mãe, e assim ficam os dois frente a frente. No final da terceira vez que se encontram fica pendente das mãos da Virgem o Sudário, lembrança sagrada do pano com que a Verónica limpou o rosto de Jesus.

Durante toda a cena do encontro reina o mais impressionante silêncio entre os fiéis que se ajoelham emocionados. Os olhos de grande número de pessoas, em especial das mãos, inundam-se de lágrimas.

A procissão retoma a sua marcha na direcção da Capela do Espírito Santo, passados poucos minutos (Cristo vai à frente, seguindo-se a Nossa Senhora).Todos os moradores das ruas do trajecto, iluminam as suas varandas e janelas com candeeiros e velas.

Da Capela do Espírito Santo onde se repetem orações e cânticos iguais aos das outras capelas, a procissão dirige-se para a Igreja Matriz onde termina.

Na madrugada de Sexta Feira Santa mulheres devotas levam o Cristo para a Capela do Espírito Santo onde durante o dia está envolto num fino pano de renda preta, alumiado com velas oferecidas e exposto â adoração dos fieis que em romagem piedosa o visitam durante todo o dia.

A Procissão do Enterro

Outra prática muito antiga e igualmente realizada todos os anos, fazendo parte do cerimonial da Quaresma e da Semana Santa é a Procissão do Enterro do Senhor. Após as orações rituais, a procissão sai. O esquife, aberto, é conduzido sob o pálio. Segue também a cruz onde foi retirado Cristo, com uma alva toalha de linho pendente dos braços. Vai ainda, abatida a bandeira do Sagrado Coração de Jesus. Relativamente mais curta que a anterior, esta procissão segue em direcção à estrada descendo depois para a Igreja. Como de véspera, os moradores das ruas por onde passa a procissão iluminam a sjanelas e varandas de suas casas.

Impressiona o silêncio interrompido apenas pelo canto triste e pelo bater monótono da matraca. (Durante a procissão cantam-se o "Heo Deus Domine, Salvator noster"). Sucede-se ao cântico o toque da matraca.

Nesta procissão o povo reza mais do que canta. Tudo é triste e o ambiente sensibiliza. Logo que a procissão entra na Igreja, o sacerdote dirige-se para o altar-mor estando já a Igreja repleta. Em frente do Sacrário está armado o Santo Sepulcro. O sacerdote auxiliado por alguns crentes e pelos confrades do Santíssimo Sacramento que envergando a sua opa vermelha tomam parte em todas as procissões, tira o Senhor do esquife, envolve-o em alvo lençol de linho e deposita-o com carinho e cuidado no Santo Sepulcro. Depois de incensado, o sacerdote bate com a tampa e fecha o caixão.

O vigário, no final, prega o sermão da paixão. Depois de entoado umas vezes mais o"Senhor Deus misericórdia" termina a cerimónia muito benquista da gente de Zebreira.

Quadra da Páscoa

Cerca dos anos quarenta foi modificado o costume de os sinos tocarem desde a manhã de sábado de aleluia durante muitas horas ininterruptas. Presentemente, mais de acordo comas Escrituras, considera-se aparecida aleluia na noite de sábado para Domingo da Ressurreição.

Realiza-se neste dia a procissão de aleluia, antes da missa, durante a qual todos cantam, homens e mulheres, com devoção e alegria, o "Ressurrexit Aleluia".

S. Domingos

Na terça feira antes de Páscoa festejava-se S. Domingos uma capela situada no campo, entre Rosmaninhal e Zebreira, conhecido por S. Domingos Velho.

Daquela localidade uma mulher trazia à cabeça a imagem do Santo e vinha de lá o povoem peregrinação, juntando-se ao de Zebreira.

Passados anos a capela foi abandonada não se tendo realizado mais a dita festa naquele local.

Porque o Santo era muito da devoção do povo da Zebreira foi mandada erigir uma capelinha igualmente no campo e termo de Zebreira, no Carvalão, direcção Toulões, em1916, para a qual os paroquianos compraram uma nova imagem.

Actualmente festeja-se oito dias depois da Páscoa, no Domingo da Pascoela, o S. Domingos bendito.

Há uma comissão constituída por três festeiros e nomeada no ano anterior, que sai durante alguns domingos a fazer o peditório para as festas.

Numa simbiose bastante perfeita também agora se nota, como sempre, a parte profana ao lado da religiosa.

Já na capela de S. Domingos há missa cantada e procissão seguindo-se a merenda, que cada um leva já preparada de casa, e festejo profano nesse campo de grande beleza em que uma capelinha branca sobressai das searas verdejantes.

O arraial que já tinha tido início na povoação na noite anterior, com quermesse, música e foguetes, continua depois de todos regressarem a suas casas.

Senhora da Piedade

Apesar da padroeira da freguesia ser Nossa Senhora da Conceição e de a 8 de Setembro a Igreja Matriz comemorar a Natividade de Nossa Senhora, a grande festa da terra sob a invocação de Nossa Senhora da Piedade tem lugar a 8 de Setembro, precedida de feira, amais frequentada e movimentada de quantas aqui têm lugar.

Nas noites dos dias 7 e 8 há arraial muito animado e no dia 8, missa cantada, procissão e sermão.

As três festeiras, raparigas solteiras, fazem "pães leves", pães de lá, que expõem junto da capela da Nossa senhora da Piedade, no bairro da Devesa, sujeitos a ofertas sendo vendidos pelas mais elevadas, contribuindo estas importâncias para as despesas da festa.

No dia 9 a "música" filarmónica, percorre ainda as ruas fazendo a despedida às festeiras velhas e saudando as novas.

A maior parte dos filhos de Zebreira que vivem fora, reúnem-se então em bom convívio honrando Nossa Senhora da Piedade, de grande devoção de todos os habitantes Zebreirenses.

Nos domingos que se seguem à festa da Nossa Senhora da Piedade são honrados S. Pedro e S. Sebastião nas suas capelas. Nos largos respectivos as festeiras, igualmente três apresentam também pães de ló que são vendidos pelo maior preço lançado, sendo a receita destinada ao serviço religioso e compra das opas respectivas que os rapazes vestem quando levam sobre os seus ombros os andores daqueles santos que saindo normalmente em todas as procissões são aqui bastantes venerados.

Matança do Porco

Rara é a família que não mata um ou mais porcos pelo Natal ou Carnaval, cuja carne é preparada de maneira a durar grande parte do ano.

O porco é colocado em cima de uma banca onde lhe é apertado o focinho com um cordel. Os ajudantes seguram-no entrelaçando-lhe as patas e o matador munido da tradicional faca pontiaguda vibra-lhe um golpe na direcção do coração ao mesmo tempo que lhe segura o focinho com a mão livre. O sangue jorra em borbotão para um alguidar que uma mulher vai agitando para não coalhar logo. A seguir são queimados os pelos com palha ou giesta e depois é lavado com agua e esfregado com pedras e os pêlos restantes raspados com navalhas.

Morto e limpo, o porco é dependurado fazendo-se para isso incisões junto dos nervos das patas traseiras e metendo um pau arqueado "chambaril", de que fica suspenso, de cabeça para baixo. Nesta posição é aberto par lhe serem extraídas as tripas e miudezas, de que as primeiras são lavadas em agua abundante.

Feita essa extracção, o porco fica dependurado até ao dia seguinte, a fim de secar, sendo então desmanchado e para que seja feito os tradicionais enchidos e o resto para salgar. As pessoas da família são convidadas para almoçar e jantarem na casa do que mata o porco.

Os pratos principais nas refeições destes dias são "barrigada", "prova de chouriço", "prova de morcela" e "prova de farinheira" de que são enviadas ofertas a parentes e amigos.

Quadra do Natal

É uso antigo, na noite do Natal, queimar no adro da Igreja, um ou mais madeiros em honrado Menino Jesus.

Encarregam-se do corte dos madeiros e respectivo transporte os rapazes solteiros que para isso reúnam no dia 7 de Dezembro, véspera do dia da Imaculada Conceição, padroeira da freguesia, combinando as diversas missões que distribuem entre si como seja, o pedido das árvores que dão o madeiro e o transporte.

Na noite de 7 para 8 vão os moços cortar os madeiros, e em geral, como a noite é fria, levam vinho e aguardente para beberem ao mesmo tempo que mantêm acesa uma grande fogueira que os aquece também.

Enquanto uns cortam ou arrancam as árvores outros cantam, dançam e bebem, revezando-se de vez em quando.

Seguidamente tem lugar o transporte para o povoado onde chegam quase de dia. Entretanto os rapazes vão vestir os fatos domingueiros e voltam junto dos madeiros. Enfeitam os carros com colchas, xailes, fitas, flores e laranjas.

Tanto o grupo musical como os cortadores, empoleirados nos carros, dão entrada na povoação que se associam à festa formando grande acompanhamento. Tocam e cantam em louvor do Menino Jesus dando vivas às pessoas de maior representação e especialmente às que oferecem os madeiros.

O espectáculo termina quando os madeiros são descarregados no adro da igreja, a que primeiro dão a volta.

Até ao dia 24 o rapazio cobre-os com "joina" rama proveniente da limpeza das oliveiras, que se faz nesta época.

Chegado aquele dia deitam fogo ao madeiro junto do qual se dispõem os homens e rapazes munidos de varapaus com que vão ateando o fogo, para que este não se extinga e mais se avive.

É costume, quando se apanha alguém desprevenido em volta da fogueira, darem-lhe uma pancada no varapau, que vai ter ao lume, ardendo.

A mocidade não se deita nesta noite e enquanto uns se aquecem, outros percorrem as ruas cantando em honra e louvor de Deus Menino porque no fundo sentem amor e devoção pelo Menino Jesus.

As Filhós

Na noite de 24 para 25 de Dezembro, antes da Missa do Galo, reúne-se cada família à lareira, onde se fala dos mais variados assuntos antigos e actuais, cantando ao Menino Jesus enquanto a dona de casa vai preparando na sertã as "filhoses", e os "brunheiros", que pelos mais remediados são polvilhados de açucare mel respectivamente. Embora se vejam filhós de forma e carrinho, as tradicionais são as "filhós estendidas". O madeiro utilizado enquanto se fazem as filhós continua a arder na lareira pela noite adiante para que quando o Menino Jesus vá à casa de cada um pôr os brinquedos nos sapatinhos dispostos no lar, se possa aquecer.

A Missa do Galo

Feitas as filhos e ouvido o terceiro e último toque para a missa, todos se dirigem para a igreja que nesta noite regurgita de fiéis, a fim de assistirem à Missa do Galo. Encontra-se armado um presépio, enquanto dos pequenos que de tarde, num afã constante, transportaram dos campos próximos musgos para esse fim.

No final da missa são cantadas diversas quadras em louvor do Menino Jesus que nesta noite, como nos Dias Santos e Domingos de Natal até aos Reis, é dado a beijar aos paroquianos, entregando estes uma esmola em dinheiro na bandeja que o sacristão transporta.

Costumes Agrícolas do Antigamente - Ceifa

Era um trabalho árduo e exaustivo e nestes aspectos estava à frente de todos os outros da vida agrícola, pelo esforço despendido e pelo calor que queimava. Começava nos fins de Maio ou princípios de Junho, dizendo o povo que "em Junho anda a foice no punho", primeiro a cevada, depois o centeio e finalmente o trigo. (No mês de Maio cortavam-se os fenos que depois de secos, após três ou quatro dias, eram atados em molhos, grandes "faxas", estas recolhiam-se nos palheiros que por essa razão se arrendavam em Maio e por um ano, antes do começo das ceifas da cevada e centeio que se seguem logo nos fins de Maio, princípios de Junho. Do dia 10 em diante começavam a ceifar-se os trigos, labutas em interrupção até ao S. João, altura em que quase todos os pequenos lavradores tinham a ceifa terminada, o que não acontece com as "casas grandes", casas agrícolas abastadas cujas ceifas se prolongavam para além do S. Pedro).

O trabalho era graduado pelo estado de maturação do cereal, tendo lugar no princípio do dia o mais ressequido, ficando para o pino do solo mais verdolengo. O atar dos molhos ,igualmente é condicionado pelo sazonamento da seara, atando de manhã as gavelas e paveias mais maduras e no ardor do sol as mais verdes. (Os molhos eram formadas "paveias" e estas de "gavelas". Gavela era o que a mão do ceifeiro podia abarcar. Cinco molhos formavam uma "pousa" e cada doze pousas um "carro", considerado como unidade no cálculo da colheita).

O trabalho da ceifa era o mais bem remunerado. Todos tinham ocupação, tanto homens como mulheres. Estas cozinhavam, ceifavam mesmo ou apanhavam a espiga, prática consentida depois de atados e reunidos os molhos em "rolheiros".

A ceifa fazia-se ao quinhão, a jornal e também de empreitada. (O quinhão na apanha dos cereais regula ao "quinto" e daí o chamarem aos que os apanhavam "quinteiros". Estes jornaleiros, agrupavam-se e ajustavam as searas (ceifa e debulha) ao quinto e à "semente sabida". O quinhão era tirado depois do proprietário ter medido e recolhido a semente que semeou. Exemplo: o lavrador semeou quatro moios. A seara deu vinte e oito moios. Tirados os quatro moios da semeadura ficam vinte e quatro moios. Ao quinto pertencem aos quinteiros quatro moios e quarenta alqueires. Se do grupo faziam parte cinco homens e uma mulher cabe a cada um, números redondos, cinquenta e dois alqueires, e à mulher, a quem compete meio quinhão e tem por serviço fazer a comida, vinte e seis alqueires. Nos contratos de "semente sabida", os ceifeiros recebiam, qualquer que fosse a produção, e a semente semeada. Este contrato fazia-se raras vezes porque os ceifeiros sabendo de antemão a parte que lhes competia não tinham interesse no aproveitamento das espigas no restolho e grão da eira.

Os jornaleiros-ceifeiros emagrecidos e enegrecidos pelo suar amassado com o pá da seara e dos caminhos, ganhando assim o pão que os alimentava, muitas vezes cantando, dando a quem os via e ouvia uma impressão de felicidade...

Carreja

Terminada a ceifa, começavam a carreja ou o transporte, em carros de bois, dos rolheiros de trigo, cevada, aveia ou centeio para a eira. (Costumavam estas ficar em locais onde o vento pudesse circular livremente, que afinal eram os mesmos todos os anos). Armados os carros, de altos fogueiros (fueiros), colocado sobre o cabeçalho larga manta para que os grãos que se desprendem das espigas se não desperdiçassem, o ganhão sobrepõe os molhos em curiosa arquitectura por forma que todos se debruçassem para dentro do carro.

Por muitos dias durava a carreja nesse tempo de calor sufocante agravado pela poeira que se levantava, valendo para isso um pequeno barril com água pendurado no chavelhão. De pavimento impermeável ou impermeabilizado e neste caso com bosta de boi, para que os cereais saiam isentes de detritos e de terra, os manguais possam cair puxados pela força e entusiasmos dos malhadores, os trigos possam rolar e os pés dos animais e trilhos pisar as espigas, as eiras são de "carácter permanente" feitas de blocos de granito (e estas são raras) ou, mais frequentemente, renovadas todos os anos. (As eiras eram preparadas em locais de utilização comum nos limites da povoação, Valecabeiro, Malhadinha e Cruzeiro. Na véspera iam buscar carradas de "bosta", excrementos de vacas, à boiada e na altura própria um pipo grande de agua. Varrido o calcadouro, quatro ou cinco pessoas, descalças e munidas de regadores amassavam com os pés a bosta espalhando-a em círculo. A essa operação chamavam "bostear a eira". O pavimento liso quando possível e exposto durante algumas horas ao sol adquiria contextura de tal maneira que os cereais ficavam sempre limpos de terra ou pedras, podendo ser utilizado para três ou quatro calcadouros).

As sementes ficavam em "medas", montes, à volta da eira, seguindo-se a debulha e a malha.

Malha e Debulha

Por ambos estes processos os grãos são retirados das espigas.

Malhava-se o centeio e pequenas quantidades de trigo, cevada e aveia, debulhavam-se grandes searas com animais no calcadouro, com o trilho e com modernas máquinas debulhadoras. Logo de manhã os malhadores, feito o sinal da cruz, iniciavam o trabalho tirando os molhos das medas e estendendo-os, depois de desatados, na eira.

"O sol ia subindo e enquanto os malhadores almoçam (sopa amarela, migas com ovos por cima e vinho) as espigas iam aquecendo para melhor se desfazerem castigadas pelo"mangoal". (Este é composto de mongueira, carapulo, meã, sedouro, chavelha, brocho, pauoupirto e mangoal).

Divididos em dois grupos, quatro, cinco ou seis de cada lado, os malhadores alinhavam, frente a frente, a um dos cantos da eirada. Começavam numa ponta e iam caminhando lentamente através da eira. Enquanto um grupo avançava o outro recuava na sua frente, batendo alienadamente e com cadência, ouvindo-se uma só pancada, de cada vez. Os malhadores, de camisa desabotoada, peito nu, erguiam nos braços vigorosos de músculos retesados, com elegância e destreza, os mangoais que faziam cair com força sobre as espigas acamadas, em movimentos certos, simultâneos, uniformes e rítmicos. De tempos a tempos, o espírito de competição e vinho levava-os a acelerar a cadência e aumentar a violência das pancadas procurando cada grupo bater mais forte que o outro. Do cimo ou fundo da eira a deslocação era, no entanto, feita vagarosamente. O cereal, desfeitas as espigas, saltava, misturando-se com os detritos de palha, entre a moinha de preganas incómodas. As mulheres voltavam a palha já batida e estendiam-na no "carreiro".

Os mangoais voltavam a rufar, eira abaixo eira acima, com ligeireza. Novo carreiro, mais outros até termo da malha. Então, dada a última volta â palha, sai esta para ser atada e seguir para os palheiros, destinando-se a colmeiros para que atassem os milhos e os fenos do ano seguinte e ainda para as enxergas, colchões, com uma cobertura ao centro por onde metem e retirarem a palha renovada todos os anos.

Malhada a eirada e retirada a palha, o cereal é reunido com os rodos a um dos cantos da eira.

Por se tratar de serviço violento dizia o povo: "quem malha fica malhado e quem debulha fica debulhado".

Falando agora na debulha, feita em maior escala, com o trigo. Os molhos de trigo eram deitados no calcadouro, já desatados, formando um círculo, a primeira volta com a "tora", o caule para fora e todas as outras, as interiores, com a espiga para fora, ficando a aquecer entre uma ou duas horas, metendo-se-lhe em seguida os animais ou trilhos. No primeiro caso juntavam cinco, sete ou mais rezes ou muares e cavalos, que pisavam o trigo espalhado na eira, no segundo fazem girar o trilho, também movido pelas rezes ou por muares logo que, previamente, o gado tenha pisado a eirada.

Depois de moída a parte superior, faz-se a volta do calcadouro para que a palha de baixo venha para cima e assim seja triturada.

Bem trilhada a eirada procedia-se à alimpação, levantando os homens e por vezes as mulheres, com "forquilhas", o conjunto palha e grão ao ar, em carreiros. O primeiro cai e fica e a palha por acção do vento afastavam-se e ia-se juntando toda a alguns metros de distância. Finalmente com pás de madeira e atirando ainda ao ar, limpava-se o grão das impurezas mais finas.

A seguir dava-se com uma "coanha", giesta larga, que leva só os palhações e não o trigo, juntando-se depois num monte.

Com um crivo, accionado por dois homens, um de cada lado e em que se deita de cada vez (de cereal), é este joeirado. A coanha continuava ater aplicação separando ainda algumas palhas mais pequenas.

Depois de crivado e aguado â pá de um monte para o outro, é medido com um alqueire de16 litros. (O moio unidade de cálculo na sementeira e colheita tem 60 alqueires). Os cereais seguem ensacados para as tulhas, havendo o cuidado de previamente separar a semente do primeiro calcadouro para se não misturar com outro.

Enquanto dura o "calcadouro", os ganhões, para que o gado não esmoreça, iam cantarolando com música própria e falando constantemente aos animais tratando-os pelos nomes.

 

 
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