Herdade do Soudo PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

icon Sete Séculos e Meio: profundidade histórica de um sistema de produção arcaizante

Trabalho científico elaborado por Pedro Manuel Agostinho da Silva, Prof. Adjunto IV da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas-UFBA. Departamento de Antropologia

Herdade do Soudo

Há em Zebreira um resto vigoroso de tradição comunitária. Orlando Ribeiro em "Le Portugal Central" diz que já não há rebanhos de ovelhas, mas que os bois e os porcos costumam agrupar-se em rebanhos, com pastores pagos proporcionalmente ao número de cabeças, pertencendo os reprodutores ao povo. Há também restos de organização comunitária na maneira como se repartem os lotes da Herdade do Soudo que os camponeses cultivam todos os anos. A única condição exigida para se ter direito ao cultivo dum lote de terra é possuir uma junta de bois, nada mais. Estes homens sem terra (exceptuando pequenos retalhos de horta) são chamados lavradores. Ao todo há uns cento e oitenta, que possuem um milhar de vacas no rebanho comunitário.
Muito se tem escrito e discutido sobre o problema da Herdade do Soudo a fim de o solucionar no sentido do maior benefício para o povo da Zebreira. Foi no reinado de D. Sancho I que Martim Perna recebeu do concelho de Idanha-a-Nova o herdamento da Tola para arrotear essas terras.
Martim Perna associou, em comunidade de posse e propriedade da herdade, vários companheiros e juntamente com eles povoou o Soudo onde fundaram um pequeno povoado que veio a ter influência na fundação de Zebreira quando aqueles retiraram para um dos extremos da herdade onde hoje se encontra Zebreira.
Martim Perna, que começou a viver na herdade com os seus companheiros, poucos, sendo a terra muita, em regime comunitário de terras e pastos, fez mais tarde doação daquela à Ordem do Templo, encarregada então da defesa da Beira Baixa contra as arremetidas dos mouros.
Depois da doação, a Herdade passou à situação da propriedade imperfeita, pois, embora se pagassem as foragens aos Templários, a herdade ficou a fazer parte integrante do património dos moradores do Soudo e mais tarde dos seus sucessores. Extinta a Ordem do Templo pelo Papa Clemente Vem 3 de Abril de 1311, passou a Herdade do Soudo, como muitos outros bens, para a Ordem de Cristo, fundada pelo Papa João XXIV, em 14 de Março de 1319.
Através dos anos, a herdade passou da Ordem de Cristo para a posse de particulares. Sabe-se que, por compra, veio parar às mãos do pai do Dr. Heitor de Pina e sua mulher.
Assim, no testamento dos fundadores do Colégio da Madre de Deus, se lê o seguinte: "No ano de 1583 Heitor Pina e sua mulher Francisca de Brito, fundadores do Colégio da Madre de Deus, de Évora, fizeram testamento fazendo ao Colégio a deixa da Herdade do Grande que tem no termo da cidade de Idanha-a-Velha, no limite de Zebreira, que se chama as Casas do Soudo, que me tocou de meu pai e minha mãe, a qual foi por eles comprada".(Do testamento de Heitor de Pina, Torre do Tombo, Livro das Chancelarias). Na página três do citado testamento vem expressa a intenção dos fundadores:"...Queremos e ordenamos que da nossa fazenda se faça um Colégio na cidade de Évora pela traça e no lugar que nossos testamenteiros assentarem e escolherem com cada um de nós, que vivo ficar se não primeiro em vida não começarmos ou não deixarmos feita a dita traça e assinado o lugar no qual queremos que se recolham e sustentem até treze (treze colegiais ou mais se puderem sustentar) com a renda que lhe deixarmos, e aprenderam latim, artes e teologia para haverem de ser sacerdotes idóneos ministros da Igreja Católica e que farão conforme ao Regimento que na instituição do dito Colégio fica declarado em outro papel por mim assinado o qual queremos que se guarde e cumpra assim se nesse testamento fosse expressamente escrito".
E mais adiante refere, depois de identificar a Herdade:"...e a principal renda dela é a hervagem a qual lhe deixo toda redondamente com todas as suas terras, logramentos, águas, pastos e matos rotos e por romper assim e de maneira e melhor lha posso dar e deixar".
Duma célula de codecilho que vem a seguir, se traslada:
"No termo da cidade de Idanha-a-Velha tenho uma Herdade que se chama as "Casas do Soudo" a qual meu pai que Deus tem comprou e movendo-lhe depois algumas domadas os moradores da Aldeia de Zebreira, em cujo limite está, houve contra eles muitas sentenças em que lhe foi julgada por sua própria, livre e forra somente com todas suas entradas e saídas matos e mais pastos e hervagens, e posto que em uma das primeiras sentenças se disse que acerca de pastar guardassem o costume que dantes havia e há se entendeu que pudessem pastar na dita herdade somente os lavradores que nela lavrassem e não outra pessoa algumas sem licença do senhorio e assim se declarou em muitas sentenças que depois se deram na Relação pelas quais sendo delas primeiro bem informado houve el-rei D. Filipe, Nosso Senhor, por bem me fazer mercê de fazer aquela Herdade defesa e coutada por uma nova provisão que quis valesse como carta a qual está registada no livro da Câmara da dita cidade de Idanha-a-Velha e no livro das posturas da dita aldeia de Zebreira e por que na dita provisão se manda que as coimas de toda a dita Herdade se escrevessem e julgassem na dita cidade o que parece que foi por erro e inadvertência de quem o requereu, portanto amaior parte da dita Herdade está no limite da dita aldeia e â qual pertence escrever e julgar as coimas do seu limite, digo e declaro que não foi nem é minha tenção prejudicar nesta parte o seu direito, antes quero que as coimas de toda a minha Herdade se escrevam e julguem na dita aldeia, posto que em alguma pequena parte esteja fora do seu limite na qual sendo que há anos que está na posse de a guardar o juiz de Zebreira e julgar as coimas; e esta parte é a que vai da Ribeira da Toula para a Ribeira de Aravil ou a que na verdade se achar e peço por mercê aos Senhores da Câmara de Idanha-a-Velha não queiram pôr nisto dúvida como confiam que façam, vistas as minhas sentenças pelas quais não podem usar de jurisdição alguma na dita parte da minha Herdade e sendo necessário peço a meus testamenteiros queiram ver isto por uma provisão de Sua Majestade que seja coifácil pois não é mais do que uma maneira de declaração da primeira provisão que metem concedido".
Falecido o Dr. Heitor de Pina, o Colégio da Madre de Deus viu-se empenhado em demandas e várias vezes foi chamado â banca do Tribunal para se resolver a questão da lavra e pastos da Herdade. Esta situação durou mais alguns anos até que no dia 8 de Novembro de 1611 se fez uma escritura, translada no fim deste capítulo, para evitar futuros pleitos. Esta escritura foi feita na Zebreira no dia, mês e ano atrás indicados estando presentes os representantes de ambas as partes contendoras. Houve assim entendimento mediante aquela escritura que guiou os destinos da Herdade durante muitos anos. Segundo o documento referido, todo o lavrador que amanhasse terras na Herdade, pagaria uma determinada renda ao Colégio da Madre de Deus de Évora, instituição que estava integrada na Universidade Jesuítica daquela cidade. O regime da herdade mantém-se até às reformas pombalinas que, extinguindo a Universidade de Évora, fez transitar os direitos do Colégio da Madre de Deus para a Universidade de Coimbra. Mais tarde, com liberalismo, passou para os bens nacionais.

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Em 1848, estando já a Herdade na posse dos próprios nacionais, Sua majestade a Rainha, mandou fazer um inquérito para se apurar com clareza quais os direitos que tinham na Herdade das Casas do Soudo, a Fazenda Nacional e os lavradores de Zebreira, a quem a mesma Augusta Senhora deseja conservar as regalias a que legalmente tiveram direito.
Este inquérito foi mandado fazer por portaria de 30 de Outubro de 1848, tendo procedido ao mesmo o Governador Civil de Castelo Branco. O povo de Zebreira ficou então a pagar certos direitos à Fazenda Nacional.
"Como bom executor se houve aquele Governador Civil e assim é que, do auto de visturia, reconhecimento e avaliação, lavrado na aldeia da Zebreira em 6 de Dezembro de 1848, ficou então constando o seguinte que se transcreve para melhor sabor e perfeito conhecimento:
"Foi unanimemente declarado que a Fazenda Nacional tem o direito que todos lhe reconhecem de receber de cada um dos lavradores a ração de doze um das sementes produzidas na dita Herdade e além desta ração, um alqueire de trigo de cada lavrador que lavrar na Herdade, cujas quotas os mesmos lavradores têm deixado de satisfazer por serem aconselhados que elas estavam compreendidas no decreto de 13 de Agosto de 1832, mas que mais bem dirigidos se prontificam a satisfaze-las de ora em diante à mesma Fazenda, ou a quem representar com a pena de ser excluído da Herdade aquele que se recusar a faze-lo. Que igualmente tem o direito de perceber o produto das ervagens vendidas em hasta pública pelo S. Miguel de cada ano até 10 de Março seguinte, bem como vinte mil e cem reis pelos dois agostadouros de relvas e restolho, quer o povo os paste com os seus gados, quer não. Que igualmente tem a Fazenda os seus rendeiros ou propostos o direito de satisfazer aos pedidos dos lavradores da Zebreira e repartir as terras da Herdade que se hão-de semear podendo para si reservar as que quiser cultivar por sua conta, na conformidade da escritura. Que reconhecem na Fazenda o direito de poder ressalvar o arvoredo que quiser, bem como a obrigação de o guardar da parte dos lavradores, mas que este direito não tem colhido os lavradores deste tempo imemorial de cortarem as madeiras necessárias para utensílios de lavoura, bem como de gozarem o fruto pelas mesmas produzidas e de tal modo que quando há abundância de bolota se manda guardar pela Câmara ou Junta de Paróquia e quando, à voz de pregão, se declara baldia, têm os lavradores a posse de a colher e apanhar sem que até hoje a Fazenda ou seus rendeiros os tenham colhido no exercício dela. Que o mesmo direito e regalia que os lavradores têm tido na bolota o têm igualmente nos fenos produzidos nos vales da Herdade, de dez de Março por diante e que, para se evitarem rixas e contendas, na sua repartição, é esta feita pela Câmara ou Junta de Paróquia. Que, igualmente, tem o povo de Zebreira, na mesma Herdade, as cinco malhadas mencionadas no documento n.° 1, sendo que a denominada do Azinhal das Casas, está quase toda fora da dita Herdade; mas que as quatro restantes estão todas incluídas dentro dela e em todas elas tem o povo a plena fruição dos seus produtos, que, além destas regalias tem o povo as coutadas de que a mencionada escritura fala e que, igualmente, constam dos dois documentos n.° 1 e n.°2 e, finalmente, com, as alterações supra ditas, que de tempo imemorial o povo da Zebreira está de posse, em tudo o mais reconhecem e respeitam as condições da escritura celebrada entre o procurador do Colégio da Madre de Deus de Évora e moradores deste mesmo povo aos oito de Novembro de 1611".
Repara-se que em 1848, ainda o povo da Zebreira tem na Herdade a plena fruição dos produtos de cinco malhadas, além das regalias nas coutadas e mais direitos fixados na escritura de 1611, direito que na escritura de 1893 fica reduzido à simples adua de porcos e ao desbastado arvoredo não pertencente à casa Morão. Volvidos anos, em 14 de Dezembro de 1889, a Herdade é arrematada em hasta pública, por um particular, o proprietário e lavrador da Zebreira, José Guilherme Morão, pela importância de 26.500$00.
Segue-se a parte que interessa da carta n.° 25.965-A, da Repartição do Património, arquivo Histórico, de 28 de Janeiro de 1 890:
"D. Carlos por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves etc... Faço saber aos que esta carta de pura e irrevogável venda virem, que, procedendo às diligências, anuncio e solenidades da lei arrematou em hasta pública no Ministério da Fazenda no dia 14 de Dezembro de 1889 José Guilherme Morão pela quantia de 26.500$00. na conformidade das leis de 13 de Julho de 1863 e 22 de Dezembro de 1870 a seguinte propriedade que pertence aos Próprios Nacionais e sob o número um foi posta à venda na lista 740-B a saber:
Concelho de Idanha-a-Nova Herdade denominada do Soudo na freguesia de Zebreira, que se compõe de onze hervagens denominadas: a 1ª Montinho Nabais; 2ª- Padrão; 3ª Cosga do Pereiro; 4ª Folha de João Carvalho; 5ª Entre Toula de Cima; 6ª Medronhais; 7ª Pissarra; 8ª Pontão; 9ª Entre Toula de Baixo; 10ª Agostadouros de Primavera; 11ª Agostadouros de rostolho.
A Fazenda Nacional só tem a posse das hervagens e recebe pelos terrenos nos anos da cultura, um alqueire de centeio e outro de trigo (ou 15.600 litros) de cada um dos lavradores por quem os terrenos são divididos em cada folha no dia de S. Miguel. Hei por bem transmitir-lhe, por irrevogável e pura venda, a posse e domínio que na referida propriedade tinha a Fazenda Nacional para que o arrematante, seus herdeiros e sucessores a gozem, possuam e desfrutem como própria.
....... e que o administrador do Concelho de Idanha-a-Nova, sendo-lhe esta apresentada, depois de exarada a verba de ficarem anotados na Repartição da Fazenda do distrito os assentos respectivos à mesma propriedade, faça dar posse dela ao arrematante, do que se lavrará auto para todo o tempo constar a referida venda, da qual se não pagou contribuição de registo por assim estar determinado para todas as de semelhante natureza".
Em 15 de Janeiro de 1891, por causa da turbação feita à sua posse pelos lavradores da Zebreira, José Guilherme Morão e sua esposa D. Maria Josefina de Paiva Morão, residente em Castelo Branco, tentaram na comarca de Idanha-a-Nova, acção de manutenção de posse contra 15 lavradores da Zebreira e José Guilherme Morão, proibido, sob ameaça grave, de aparecer naquela localidade onde lhe era negado o direito de vizinhança.
Finalmente os trâmites judiciais vieram a terminar pela escritura de 16 de Julho de 1893, em que são outorgantes José Guilherme Morão e sua esposa e 15 lavradores da Zebreira, que tem traduzido desde então o regime da Herdade das Casas do Soudo até à recente legislação e regulamento próprio sobre a Herdade do Soudo:
a) A família Morão;
b) Os lavradores de Zebreira, entendendo-se como tais os que seis meses antes de 30 de Novembro de cada ano lavraram terras com gado vacum e bem assim os seus filhos casados e os seus genros.
c) Os criadores de gado lanígero ou caprino.
d) Finalmente os moradores de Zebreira.
Estes quatro grupos estão ligados entre si por uma complicada rede de recíprocos direitos e obrigações e todos exercem sobre a terra um conjunto heterogéneo de poderes de tal forma que a herdade, retalhada em glebas num baralhado sistema de sorteio e reservas de cultura, conhece em cada ano e em cada parcela um dono diferente.
O sorteio em glebas da herdade do Soudo não é comunitarismo à russa, mas sim, como afirma Ribeiro Cardoso, a materialização do direito de propriedade integrado no património individual, com raízes no "portio" da "vila agrária romana", que está no condicionalismo da nossa pequena propriedade.
O conjunto de poderes extravagantes de que todos são detentores, e que as nossas leis não percebem, só podem ser explicados pela tradição mais que três vezes secular. As principais cláusulas da escritura citada são as seguintes:
"1ª ......a herdade do Soudo, designada na petição inicial da acção é a mesma idêntica herdade sobre que versa o já referido litígio (1891) e à qual se refere esta escritura.2ª Reconhecem igualmente todos os outorgantes, que a referida herdade está desde tempos imemoriais dividida em três folhas, e concordam em que assim continue, e que é pela forma seguinte:
a) Pontão, que compreende três ervagens, a saber: a dos Medronhais, Pissarra e pontão;
b) A folha entre Toula de Baixo e Toula de Cima, que compreende quatro ervagens, a do Padrão, Entre Toula de Cima, Entre Toula de Baixo e da Fonte de João Velho, hoje incluída na Entre Toula de Cima;
c) A folha da Toula que compreende duas ervagens a saber: Montinho Nabais e a daCorga da Pereira ou Pereiras.

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1° Os outorgantes entendem por folha no sentido desta transacção, uma certa porção de terreno, onde com certo intervalo de tempo se faz a sementeira dos cereais de pragana, trigo centeio e cevada.
2° O intervalo de tempo de folha a folha é de três anos, isto é, cada uma é semeada uma vez, no período de três anos, de sorte que se semeia uma das folhas em Outubro, começa-se a alqueivar a outra no dia de Santo André (30 de Novembro) por diante e está a outra de relva de repouso ou folga.
3° Nos alqueives não se pode lançar semente alguma desde que comecem a fazer-se até que em Outubro se começa a sementeira, para que não se embaracem as ervagens e pastorias.
4° Nas três folhas referidas na condição antecedente continuarão a fazer-se alternadamente o que se chama Agostadouros da Primavera e de restolho ou de verão. Únicos agostadouros de Primavera são a pastagem da folha donde se tirou o pão no ano anterior, e daquela onde se pode semear na sementeira seguinte desde dez de Março em diante. Agostadouros de restolho ou de verão são as pastagens da folha do pão ou onde se criou o pão, desde que o dito pão se ceifa e transporta para a eira até S. Miguel seguinte.
5° No terreno da folha que há-de ser alqueivada ou preparada em cada ano para receber a semente ficam os primeiros outorgantes Excelentíssimos José Guilherme Morão e esposa, seus herdeiros e sucessores com direito de escolher até quinze de Novembro de cada ano uma porção de terreno reunido, que leve até os litros correspondentes a cinco moios de semeadura para estrumarem e semearem por conta própria.
6° Neste terreno não se compreendem os vales que costumam dar feno, os quais, os referidos primeiros outorgantes não podem lavrar.
7° Hão-de comunicar a escolha aos lavradores até ao dia vinte de Novembro, sob pena de se entender que os primeiros outorgantes desistem deste direito no ano em que se não pode dividir toda a folha desse ano pelos lavradores da Zebreira, incluindo os primeiros referidos outorgantes se quiserem.
8° Os primeiros outorgantes não podem estrumar na Coutada dos Bois, que é a pastagem da terça parte da folha que se alqueiva, guardada exclusivamente para o gado vacum dos lavradores é para a adua do povo.
9° Esta coutada será sempre no mesmo terreno em cada folha e a que actualmente está demarcada com malhões, conhecidos de todos e a sua duração é desde o dia vinte e nove de Setembro ao dia dez de Março em que começam os Agostadouros de Primavera.
5º A adua é o ajuntamento dos porcos criados à pia, ou à porta de cada um dos moradores, e que, durante o dia, vão para o campo sob a guarda paga por seus donos.
10º O terreno que os primeiros outorgantes não tiverem estrumado até ao dia dez de Março pode ser dividido em sorteio adicional entre todos os lavradores que tiverem entrado no primeiro sorteio, ou entre aqueles que quiserem.
11° Os primeiros outorgantes não poderão escolher o mesmo terreno dentro de nove anos, a contar do alqueive, de sorte que o terreno escolhido uma vez, não pode tornar a ser senão depois de passadas duas pegas ou folhas.
12° Com excepção dos terrenos da folha mencionados nas condições antecedentes todo o mais terreno da mesma folha continuará a ser dividido até ao dia de Santo André (trinta de Novembro) por todos os lavradores da freguesia da Zebreira. Por lavrador para o efeito deste contrato, entende-se que é todo aquele que lavrar com gado vacum pelo menos seis meses antes da divisão do terreno para a cultura, excepto se for filho casado ou genro de lavrador, porque nesse caso terá direito à sorte antes da divisão.
13° Para se fazer a divisão de que trata esta condição, os lavradores reunir-se-ão no primeiro Domingo do mês de Novembro na sacristia da igreja ou na Casa da Câmara para o fim de nomearem uma comissão composta de três lavradores, sendo um deles nomeado pelos primeiros outorgantes ou por quem os represente, outro pelos lavradores, e o terceiro â sorte dentre os dez lavradores que lavrarem na freguesia com maior número de juntas, podendo servir de desempate o primeiro outorgante ou quem lhe suceder ou representar.

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A esta comissão compete:
1º Fazer até ao dia 15 de Novembro de cada ano uma relação dos lavradores por quem a folha da herdade há-de ser dividida para a cultura em 30 de Novembro. Esta relação será afixada à porta da igreja até ao dia 20 do mesmo mês, afim de que possam reclamar perante a mesma comissão os que se encontrarem prejudicados, podendo recorrer para a assembleia dos lavradores e daí para o juízo desta Comarca (Idanha-a-Nova), pagando as custas aqueles vogais da comissão que forem vencidos, ou o reclamante se não provar o fim da sua reclamação. Desta relação se enviará uma cópia autenticada aos primeiros outorgantes.
2º Distribuir com igualdade pelos lavradores até ao dia dez de Julho de cada ano todos os fenos criados na herdade, incluindo os primeiros outorgantes.
3º Fazer uma relação dos gados com que cada um dos criadores pretende entrar na herdade e apresentar até ao dia dez de Marco de cada ano uma relação autêntica aos primeiros outorgantes. Todo o criador que entrar na herdade com maior número de cabeças de gado lanígero e caprino de que constar essa relação poderá ser encoimado como transgressor do regulamento das posturas municipais deste Concelho. Toda a vez porém, que os criadores não meterem na herdade o gado que houverem declarado, será o gado rateado por todos os outros criadores e para esse efeito ficam todos os outorgante scom direito de contarem o gado quando quiserem.
4º Cada lavrador por quem for distribuído terreno fica obrigado a pagar até ao dia 30 de Setembro de cada ano aos primeiros outorgantes, seus herdeiros e sucessores, os litros correspondentes a dois alqueires de trigo e um de centeio, limpo, e capaz de receber, ainda que não semeie. O lavrador que deixar de pagar a sua cota poderá ser demandado pelos primeiros outorgantes, seus herdeiros e sucessores, e, além disto, fica inibido de entrar em divisão e sorteio nos anos futuros.
5º Reconhece-se que os dois terços das ervagens da folha do alqueive e toda a folha de relva ou repouso ficam sendo propriedade exclusiva dos primeiros outorgantes desde o dia vinte e nove de Setembro de cada ano até ao dia dez de Março do ano seguinte.
6º As ervagens e pastos da herdade do Soudo desde dez de Março até vinte e nove de Setembro de cada ano (agostasdouros da Primavera e de Verão ou restolho) serão aproveitados e comidos por todo o gado bovino e por cinco mil cabeças de gado lanígero e caprino dos lavradores ou criadores da Zebreira e dos primeiros outorgantes, não podendo, porém, os lavradores ou criadores meter na herdade, naquele tempo, mais de três mil cabeças de gado lanígero e caprino, pelas quais pagarão aos primeiros outorgantes e seus sucessores, prorata a quantia de cinquenta mil reis em cada ano e até ao fim de Setembro, não pagando, porém, coisa alguma pelo gado bovino. Único Fica expressamente declarado que só os primeiros outorgantes podem ceder a quem quiserem os seus direitos de meterem os gados na herdade até perfazerem o número de duas mil cabeças.
7º As pastagens da margem direita da Toula contra o Norte ficam exclusivamente destinadas para o gado bovino de trabalho no tempo que decorre desde dez de Março até vinte e nove de Junho. Tanto o gado bovino de trabalho como o que não trabalha, pasta livremente nos agustadouros tanto de primavera como nos de Verão ou restolho; e nos de restolho é a terça parte deles como se faz de tempos antigos, destinada exclusivamente ao gado bovino até ao dia vinte e quatro de Agosto, e daí por diante corre o outro gado todo a herdade até ao S. Miguel.
8º Fica pertencendo exclusivamente aos primeiros outorgantes e a seus sucessores e representantes a propriedade de todo o arvoredo que actualmente existe, ou que possa vira fazer nas terras da hervagem que actualmente existe, ou que possa vir a fazer nas terras da hervagem do Montinho Nabais, nas da Toula à Granja, caminho de Alcafozes adiante contra o Nascente, não podendo porém ressalvar a menor distância que a dez metros de umas às outras árvores. Igual direito fica pertencendo ao povo da Zebreira para ressalvar o arvoredo dos restantes terrenos da mesma herdade e este arvoredo será propriedade exclusiva do referido povo.
Único Fica expressamente estipulado que se qualquer lavrador queimar roças no Montinho Nabais, nas da Toula â Granja, caminho de Alcafozes adiante contra o Nascente, se previamente avisar os primeiros outorgantes incorrerá na obrigação do pagamento das perdas e danos causados aos primeiros outorgantes pelo motivo do fogo.
9º Concordam todos os outorgantes em que a parte hervagem do Pontão trocada para coutada pelo do Padrão, continue a ser trocada para o mesmo fim.
10º Fica expressamente estipulado que quando a folha tiver de ser feita na hervagem do Moutinho Nabais não poderá lá entrar gado de qualquer espécie para comer a bolota.
11º Fica inteiramente extinto e acabado o pleito pendente no tribunal de Idanha-a-Nova entre todos os outorgantes.
Em seguida por todos os outorgantes presentes foi lido que assim aceitam esta escritura com todas as suas cláusulas e condições, como fica exagerada e se obrigam por si e seus sucessores a cumpri-la e a faze-la boa, firme e de paz, desde hoje para todo o sempre".A assembleia que, segundo uma das cláusulas, deverá reunira para se proceder ao sorteio na sacristia da Igreja, costuma faze-lo de há uns anos a esta parte, na praça onde está a antiga Casa da Câmara.
Os lavradores começam a reunir-se de manhã para se proceder ao sorteio. Todos os presentes sabem quais são os que reúnem condições para serem admitidos como lavradores da herdade. Depois de algum tempo de conversa sobre os mais variados assuntos da vida agrícola, a comissão do alto do balcão da antiga Casa da Câmara pede silêncio para proceder â leitura dos nomes dos lavradores que irão lavrar a herdade no futuro ano agrícola. O presidente da comissão que geralmente é o representante da casa Morão vai lendo o nome dos lavradores. Se algum não tem o direito â sorte (gleba), ao ser lido o seu nome, todos os outros dizem em alta voz "fora", explicando imediatamente a razão desse procedimento. Normalmente a exclusão de algum lavrador do sorteio é feita por unanimidade.
O sistema seguido na exploração da Herdade das Casas do Soudo apresenta vários inconvenientes. Assim, o estatuto de 1893 não permite a inclusão das leguminosas que são plantas melhoradas do solo e que muito contribuem para aumentar a fertilidade do mesmo. Depois o sistema de divisão por meio de sorteio dá como resultado que o lavrador, este ano, lavrou a sua sorte em certo ponto mas no ano seguinte a sorte (gleba) não é a mesma, o que contribui para que não se desenvolva no seu íntimo o amor pela terra que cultiva, não sentindo como se a propriedade lhe pertencesse; na verdade o direito de propriedade é condição importante na valorização da terra. Há ainda a mencionar o facto de as terras estarem esgotadas pelas rotações defeituosas e a falta de fertilizantes pois as ovelhas que ali pastam durante o dia vão pernoitar às terras dos seus donos. Porque as pastagens são apenas constituídas com erva espontânea com dificuldade poderá aumentar a riqueza pecuária. Por último apontamos ainda a falta de arvoredo e acção das águas de dois ribeiros que atravessam a Herdade arrastando as suas melhores terras por não se fazerem muros de suporte e outros melhoramentos.
Nesta herdade, segundo o inquérito feito aos seus usufrutuários pelo engenheiro agrónomo Lago de Freitas, em 1946, havia 144 lavradores, dos quais 101 eram proprietários e destes, 81 também rendeiros e apenas 15 pequenos lavradores ou simplesmente lavradores da herdade.
Uma das cláusulas para os lavradores serem admitidos ao sorteio anual de glebas era, como vimos, de ter pelo menos uma junta de vacas. Por esta cláusula que exclui os mais pobres em beneficio da gente de alguns haveres e até de abastados proprietários e ainda por outros motivos, sentindo-se a necessidade de retomar o regulamento a que estava sujeita a herdade, para o reformar.
Em 1948 apareceu no Ministério do Interior uma queixa sobre a defeituosa exploração da herdade das Casas do Soudo. Esta queixa deu origem a que se formasse uma comissão encarregada a proceder a um inquérito e que foi constituída pelo secretariado do Governo Civil e por dois agrónomos. O secretariado estudou a evolução do seu estatuto e dos técnicos, um coordenou a forma actual da exploração da herdade (escritura de 1893), estudando o outro o parcelamento da herdade. O povo, faminto de terra, votou contra a manutenção do estatuto de 1893, apresentado com leves alterações. Os lavradores ec riadores não concordaram com o parcelamento da herdade. Cada grupo defendia o ponto de vista do seu interesse. Em jogo, porém, não estava o interesse dos grupos mas sim, como diz, J. Ribeiro Cardoso, carrilara exploração da herdade em ordem à melhoria social do agregado que se formou à sua volta, conjugada com uma maior produção. Esse foi o sentido e alguns resultados têm sido obtidos depois que entrou em vigor o Regulamento da Exploração e Fruição da Herdade do Soudo, adiante transcrito.
A contar dos longínquos alvores do século XVI até aos nossos dias, íntima ligação se descobre e não se perdeu entre a fruição da herdade e o agregado social povo de Zebreira. A herdade é do povo, diz o lavrador, o criador ou o simples morador.
Um elo fortíssimo une o Povo à Herdade e dá a todos o direito de serem também lavradores e entrarem no sorteio, bastando para tanto serem possuidores de uma junta (de vacas).
Esta junta é um símbolo que esconde o inevitável e o irrecusável direito que todo o morador, pobre ou rico, tem sobre a herdade das "Casas do Soudo", do "termo da cidade de Idanha-a-Velha", no limite da "aldeia de Zebreira", como se vê pelo testamento de 1583. Segue-se três documentos:
O nº 1 é a escritura de 1611, primeiro estatuto formal de exploração das terras e de reconhecimento de direitos ao povo da Zebreira (nele se faz nítida distinção entre lavradores e moradores).
O nº 2 é o decreto-lei n.° 39.765, de 15 de Agosto de 1954, que autoriza a junta de Freguesia de Zebreira, Concelho de Idanha-a-Nova, a adquirir os direitos sobre a Herdade do Soudo, daquela freguesia.
O nº 3 é a portaria n.° 15595, de 4 de Novembro de 1955, que aprova o Regulamento de Exploração e Fruição da Herdade do Soudo, sita na freguesia de Zebreira, Concelho de Idanha-a-Nova.
 
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